Professor: risco ocupacional?
Ser professor e professora se tornou literalmente, a terceira profissão mais estressante do país, só ficando atrás de ser policial militar e técnico/a de enfermagem.
A gente não chegou nesse estresse, nessa insanidade, cheia de laudos, burnout, muitas vezes medo de estar na sala de aula, insegurança profissional, por acaso. Não foi também porque perdemos o direito de bater com a régua nos dedos dos nossos estudantes e colocar lá na frente, com orelhas de burro, o “bagunceiro”.
Alguns, mais saudosistas, dirão que nem sempre foi assim, porque antes tínhamos “o direito de disciplinar”. Esse tipo de pensamento é muito simplista e redutor do realmente problema das coisas. Acreditar, por outro lado, que devemos retomar esse tempo perdido, é acreditar em soluções simplistas.
Nós chegamos nessa situação por problemas maiores.
A profissão docente sempre foi desafiadora. Historicamente relegada às mulheres, foi se acentuando o desprezo, o desrespeito, os xingamentos, as agressões, com um salário que não condiz com tudo que fizemos até aqui.
Tudo isso feito de propósito pelos inúmeros governantes (até aqueles de “boa intenção”) que não tratam a educação como um direito, mas como um balcão de negócios. Que veem a educação como um verdadeiro perigo. Com isso, o sistema abandona às escolas, desvaloriza os professores e temos que inventar estratégias de sobrevivência dentro do “bom senso”.
E, de repente, vão nos empurrando aí, aos trancos e barrancos, a missão de salvar o mundo.
Quase toda semana escuto dos meus estudantes que “pô, professor, deve ser um saco estar aqui com a gente” ou “por que tu é professor?”. A maioria das vezes preciso me reorganizar para responder que não importa a paulada que tome, não importa o dia que a turma esteja mais bagunceira, não importa o dia mais complicado que eu esteja tendo, muitas vezes simplesmente escutar que algo que faço faz a diferença ou sair de uma sala de aula pensando que o dia valeu a pena e que o que fazemos é lindo, me dá fôlego para continuar tentando.
E mais do que tudo, saio da sala sabendo que não vou deixar o sistema ganhar. Porque esse caos todo é para que o sistema ganhe, e a gente continue sendo moído. A gente, nós, nosso povo, eu e os estudantes no futuro. Esse sistema vai exigindo que a nossa alma fique do lado de fora e a gente compartimentalize quem somos. Um técnico, alguém que chega e despeja, sem fazer pensar, porque o objetivo é moer todo mundo.
Mesmo no caos, precisamos ter teimosia para não ser parte do sistema. Não somos um aqui e outros lá. Não deixe que a vontade de desistir seja maior que a vontade de ganhar do sistema.
Ser professor e professora se tornou um risco ocupacional. Somos a terceira profissão mais estressante do país! Mas continuamos porque sabemos que tem lá também as coisas mais lindas do mundo.


