Aluno é "sem luz"?
Toda formação tem alguém dando palestra e falando que “aluno” significa sem luz. Não sei ainda se falar isso nos coloca em uma posição de perceber que ensinar não é transferir conhecimento, ou que nós devemos carregar a luz.
O que sinto, muitas vezes, é que essa fala representa uma tentativa muito rasa de ser contra a educação tradicional em que estudantes são tratados como uma tábula rasa, ou seja, desprovidos de saberes, e, portanto, “sem luz”. Em que a gente só vai colocando conteúdo sem razão.
Até porque a própria ideia é um mito da etimologia popular associada ao prefixo A, no latim, que significa “sem”, negação de algo, junto ao termo “luno”, luz. Ou seja, uma conclusão de que seria “sem luz”. Porém, a real origem vem do latim “alumnus”, que significa criação, pupilo, discípulo, e o termo deriva também do latim alere, que significa alimentar ou nutrir, então aluno é aquele que se nutre. Mas o termo não passa de um mito.
O real problema é: estamos falando ou estamos praticando?
Como muitos chavões da educação, parece que isso não vira prática. A formação termina, as pessoas que leram isso em algum canto da internet seguem suas vidas, e nós não avançamos para além da ideia de fazer educação “para” os alunos, e não “com” os alunos.
Existe uma grande diferença nos dois termos, e não é pensar que os estudantes são “sem luz” ou qualquer bobagem desse tipo mas a compreensão de que o ensino requer envolvimento, corporificação pela prática e abertura ao outro. Fazer isso também é estar vulnerável ao que podemos aprender e ensinar enquanto aprendemos.
É muito bonito falar que os alunos são sem luz, assim como citar uma frase qualquer do Paulo Freire (que muitas vezes nem é dele), e depois fazer tudo ao contrário, exigir disciplina, enfileirar as classes e encher o quadro.
Eu sei. Como se envolver quando falta merenda, temos 30 estudantes na aula, falta material, a carga horária nos consome e a burocracia sufoca? Como fazer diferente quando o sistema rouba tudo que a gente tem, e ensinar envolvendo o outro exige muito de nós, e parece que já não temos mais para doar?
Não se renda a essa narrativa de fim de mundo. Há sementes precisando da gente. E não serão chavões de formação e frases bonitas de caneca que vão mudar as coisas, mas a afirmação da nossa posição de que ensinar é muito mais do que transferir conhecimento, mas criar a possibilidade para reconstruir esse mundão.



